“Credibilidade”, antes que seja tarde

O mercado do futebol está apreensivo com a situação difícil dos clubes que se recusam a reconhecer a realidade pré-falimentar em que se encontram. Essas entidades não saldam seus débitos nos prazos contratuais, não equacionam dívidas e créditos, não enxugam seu adiposo corpo administrativo, não investem em qualidade nem incrementam receitas.

A credibilidade desses clubes se encontra em franco declínio, resultado da má gerência e falta de seriedade de seus dirigentes e da desconfiança de seus credores. Este quadro diretivo de plantão é composto em geral por empresários, que na suas empresas e negócios não se comportam de forma tão irresponsável como na gestão dos clubes onde participam.

O fair play financeiro, promovido pelo governo através o Projeto de Lei para regularização dos débitos fiscais com a União, descortinou o pano das trevas, exigindo como contra partida punições desportivas para aqueles clubes que não promoverem o saneamento de suas dividas, desatando o nó que os amarra a estagnação econômica e injetando oxigênio para sua sobrevivência e poder de recuperação.

Essa ação do governo, a meu juízo, só terá êxito se tiver o sentido de um pacto de diferimento das dividas subordinado a um compromisso de saneamento. Trata-se de uma moratória a ser concedida ao clube, para que ele deixe de pagar temporariamente as suas dividas vencidas com a União, para que assim, possa se utilizar desse capital de giro para alavancar novamente a sua receita.

Uma empresa comum é basicamente composta por uma Diretoria Executiva, um Conselho de Administração e um Conselho Fiscal. No futebol, os “acionistas” que vem acompanhando a dilapidação progressiva de patrimônio de seu clube, correspondem aos associados representados pelo Conselho Deliberativo.

Em tese, numa situação corporativa, quando uma empresa apresenta uma crise financeira grave a Diretoria Executiva é substituída por gestores mais competentes e profissionais, com a missão de resgatar a credibilidade junto aos credores e fornecedores, aumentando o leque de negociação, gerando uma atmosfera de confiança que contribui para os credores renegociarem os seus prazos.

Essa Diretoria para cativar a credibilidade, precisará enxugar a estrutura e cortar toda a gordura do quadro gerencial, reconstruindo e não destruindo o clube. Diminuir custos implica em minimizar tanto as despesas salariais quanto as não salariais. Esses “organossauros” mergulhados no redemoinho recessivo dos custos elevados, tanto das atividades meio como das atividades fins, carregam em sua popa a inadimplência institucionalizada.

Quanto ao Conselho de Administração, este deve ter um acompanhamento equidistante das ações do Executivo, dando uma demonstração inequívoca de colaboração para que credores e fornecedores creiam em sua execução. É necessário que esse Conselho trace com coerência a estratégia e politica do clube a ser gerida pelo Executivo, cabendo ao Conselho Fiscal controlar e garantir o enquadramento dessas politicas dentro da legalidade.

Mas lembre-se: o clube sem a paciência e a confiança do associado, não irá a lugar nenhum. Caso contrário, ele sofrerá as consequências do futuro entrevado de uma massa falida. No ideograma chinês a palavra crise correspondente à junção de duas outras: risco e oportunidade.

No atual momento do futebol é imperativo se aprender a conjugar este significado oriental. Infelizmente, riscos e oportunidades no Brasil precisam de decretos, leis e atos institucionais do Estado que sempre é chamado para ajudar a salvar uma atividade de alto interesse social como é o futebol. O roteiro dessa viagem será escrito por nossos parlamentares no Projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal para os clubes de futebol, afrouxando o torniquete fiscal que sufoca nossos clubes e detonando de vez politicas públicas que livrem os clubes de rombos orçamentários.

Enfim, é um caminho sem escalas rumo ao futuro, pavimentado pela ética e alicerçado pelas regras que regem a modernidade. Acredito que estamos caminhando para grandes mudanças estruturais e de mentalidade que nos remeterão para um futuro mais próspero.

O malfadado “jeitinho brasileiro” arraigado em nossa psique coletiva passa por um processo traumático e é um estágio de peneiramento ético doloroso, mas absolutamente necessário.

Por : admin /Novembro 27, 2014 /Artigos

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