Bola Dividida

Por Dagoberto Fernando Santos

Cobra-se muito a decantada profissionalização do futebol com um discurso técnico e uma prática eminentemente amadora. Esse tema sempre me empolgou e, em 2013, escrevi um artigo com o titulo: “Diretor de Futebol: convenientes, alquimistas ou especialistas”. A classificação nessas três categorias buscava mostrar que cada presidente de clube possui o executivo de futebol que merece e a escolha desse profissional é, sem dúvida, uma opção presidencial, assim como as responsabilidades pelas consequências dessa decisão. Assim, após um tempo eu retorno a abordar esse tema, preocupado com a “dança das cadeiras” e o tempo médio de permanência desses profissionais na função.

Faz algum tempo que os clubes descobriram que a sua atividade fim – o futebol – deveria ser cuidada profissionalmente por um executivo de mercado, revelando sinais evidentes de mudanças estruturais e de mentalidade em busca de um caminho solido e estável, pavimentado pela ética e pelo conhecimento, deixando de lado o protecionismo e os interesses pessoais.

Aprendi ao longo da minha vida acadêmica como docente em administração e pela experiência como executivo no mundo corporativo que, quando se fala em gestão profissional, o que importa mesmo são as pessoas. O resultado do trabalho é reflexo direto daquilo que essas pessoas fazem e o seu talento é medido por sua capacidade de ultrapassar adversidades. Infelizmente nossos dirigentes de clubes ainda não se atentaram para a importância da seleção, escolha e manutenção desses executivos. Via de regra desprezam a sua qualificação, a experiência e a remuneração, como requisitos básicos para se obter sucesso na gestão do futebol.

Além de liderança, capacidade gerencial, dinamismo e comprometimento, ter uma formação acadêmica adequada, cursos de especialização em gestão esportiva, legislação desportiva, conhecimentos em registros e transferência e idiomas como atributos que aprimoram as habilidades para executar da melhor forma suas atribuições desse cargo. A qualificação profissional funciona de forma complementar à formação, e buscar outros tipos de conhecimento, que não os já aprendidos em sala de aula.

Quanto à experiência é fundamental se conhecer por onde o profissional passou, quais foram os resultados que trouxeram para os clubes das quais fez parte, além de se entender o perfil e o momento pessoal de cada um. A trajetória pessoal e profissional sempre foi e continuará sendo, um patrimônio individual e uma marca pessoal reconhecida pelo mercado da bola, sendo essa a sua principal ferramenta para se posicionar nesse contexto. Um profissional experiente é responsável. Não se concentra nos problemas do meio envolvente, nem nas circunstâncias que fogem ao seu controle. Não se vitimiza, pelo contrário, lidera. Assume as suas escolhas e, se não forem as mais corretas, utiliza-as para compreender melhor a situação e aprender com elas. Estou convencido que o futebol precisa de menos gerenciamento e mais lideranças.

Quanto ao discutível e incompreendido valor da remuneração desse cargo resta dizer que o mercado define esse preço em função da demanda (lei da oferta e procura) podendo variar de acordo com as competências do profissional e a necessidade do clube. Mas, se você acha que custa caro um executivo de futebol eficiente é por que não faz ideia de quanto custa um incompetente. É fundamental que o profissional transfira o seu “know-how” para o clube e não venha aprender com o clube por falta de qualificação e experiência. A remuneração é o preço da força de trabalho (competências + tempo disponível) que o profissional coloca a disposição do clube através um contrato que rege a relação entre as partes.

Vale a pena apreciar onde tudo começa: – relação com a presidência do clube – para se ter a devida dimensão do ônus do cargo, não numa linguagem corporativa, mas sob uma visão pragmática desprovida de emoções.
No meu julgamento o presidente não precisa conhecer profundamente de futebol, mas que seja eficiente na tarefa de escolher pessoas, na delegação de autoridade e na administração das vaidades, mostrando cotidianamente, que atuando coletivamente, elas conseguem produzir mais do que cada uma agindo isoladamente. O fato é que muitos presidentes ignoram o conceito de risco optando na pratica por uma escolha baseada em ações políticas e pessoais que invariavelmente acabam em desastres.

Da maneira como essas relações entre o executivo de futebol e a presidência são construídas redundará no sucesso ou insucesso da gestão do futebol. Se essa relação for oscilante, com sobreposições de funções, interferências de ações, “fogueiras de vaidades”, conflito entre o poder e o saber, o executivo do futebol servirá apenas como um disjuntor para proteger o presidente contra possíveis danos causados por sobrecarga de incompetência, ou interesses políticos, ou ausência de resultados.

Mas vale a pena lembrar que o sucesso não precisa de explicações, e o fracasso não admite desculpas. Afinal quem responde e fala pelo futebol do clube no seu cotidiano? A resposta dessa pergunta permitirá avançar e delimitar os espaços de atuação de ambos evitando desmandos que minam o ambiente. Caso contrário, na medida em que o executivo perde o poder ou fica em desacordo com a realidade, aparece à discrepância entre a reputação ostentada e a verdade e aí ele precisa revelar disciplina dramática para não desmoralizar a companhia teatral da qual faz parte.

Geralmente, num clube de futebol existe um forte desiquilíbrio entre o direito de decidir e o poder de realizar. Assim habilidade, especialização e competência são aspectos que entram continuamente em choque com a autoridade, generalização e hierarquia. Em tese o presidente ungido pelo voto dos associados, tudo pode, mas fazer as coisas bem feitas com a participação de todos os envolvidos, custa menos que fazê-las mal e evita consequências politicamente indesejáveis.

Se o presidente de forma monocrática decide, sem a participação do executivo, negociar jogadores, acatar demandas diretamente do treinador, atender atletas em seu gabinete, receber empresários, não ter o devido cuidado com aquilo que promete fazer, falar diariamente sobre futebol com a imprensa, entre outras, ele estará cumprindo um roteiro clássico de desgaste das relações dando margem a especulações midiáticas sobre o ambiente organizacional. Por outro lado é imperativo que o executivo de futebol entenda como o clube respira.

A intenção deste texto é provocar uma reflexão sobre, se na busca de um culpado, a solução mais simples de se demitir o executivo é ou não a melhor. Talvez valesse a pena rever os critérios que foram utilizados na seleção e escolha desse profissional e as atitudes recentes através de uma análise endoscópica e racional dessa parceria entre o poder e o saber. O termômetro dessa confiança entre os envolvidos será medido pelo tempo do executivo no cargo. Toda equipe vitoriosa começa seu itinerário rumo ao sucesso no momento da seleção dos componentes. Outro detalhe vital: o presidente tem que confiar no trabalho da equipe, conhecendo suas qualidades e suas deficiências, valores fundamentais para quem deseja dirigir um clube de futebol vitorioso e compreender também a necessidade que um executivo de futebol tem de ser valorizado.
Chega de bola dividida.

Por : admin /Maio 16, 2018 /Artigos

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