Conselho de Administração em Clubes de Futebol

Antes de fazermos algumas considerações sobre a criação de Conselho de Administração em clubes de futebol, vamos entender o que é Governança Corporativa.

A governança corporativa tornou-se um tema dominante nos negócios devido à safra de escândalos corporativos em meados de 2002 – Enron, Worldcom e Tyco, para citar apenas algumas. O interesse na governança corporativa não é novo, mas a gravidade dos impactos financeiros das fraudes executadas pelas empresas já citadas abalou a confiança dos investidores.

Estes escândalos trouxeram a tona o problema de como reestruturar a administração de uma sociedade, de forma a dar transparência aos seus acionistas e ao mercado, com relação aos processos de tomada de decisão e dos atos praticados pelos seus administradores.

A partir desse desafio a governança corporativa, através um conjunto de práticas, procedimentos e atitudes que regem o relacionamento entre os diversos interesses da empresa buscou recuperar e garantir a confiabilidade abalada junto aos acionistas. Atualmente, grandes instituições atribuem à governança corporativa o mesmo peso que aos indicadores financeiros quando avaliam decisões de investimento.

Você deve estar pensando que este conceito não representa nenhuma novidade e que estas regras e procedimentos sempre foram necessários. Você não estaria errado pensando assim. Entretanto, o atual estágio de desenvolvimentos das empresas e dos negócios tornou quase que obrigatória à adoção destas práticas que de forma crescente, em se tratando do futebol brasileiro, tira de cena a figura tradicional do “dono” do clube e entram os executivos e a profissionalização.

A boa governança corporativa proporciona aos verdadeiros proprietários (associados e comunidade) a gestão estratégica do seu clube e a efetiva monitoração da direção executiva. As principais ferramentas que asseguram o controle dos associados sobre a gestão são o Conselho Deliberativo, o Conselho de Administração, e o Conselho Fiscal.

O Clube que opta pelas boas práticas de governança corporativa adota como linhas mestras, a transparência, prestação de contas e credibilidade. Para que essas estejam presentes em suas diretrizes de governo, é necessário que o Conselho de Administração exerça seu papel na organização, que consiste especialmente em ESTABELECER ESTRATÉGIAS para o clube, ASSESSORAR O DESEMPENHO da gestão e ESCOLHER A AUDITORIA INDEPENDENTE.

Os problemas começam a aparecer quando o Conselho de Administração assume as funções de gestão e passa a ser conhecido como Conselho Gestor. Envolver e reunir esses conselheiros na condução do dia a dia do clube, nas decisões de curtíssimo prazo, onde muitas vezes a agilidade do processo é fator determinante no sucesso da tomada de decisão, ou ainda, promover a distribuição feudal das áreas do Clube, cada uma sob a responsabilidade de um destes conselheiros, é a meu juízo, desfigurar a função do Conselho de Administração e de tornarem impessoais as responsabilidades que deveriam ser pessoais e intransferíveis pelo uso da autoridade delegada. O Conselho Gestor  tende a transformar  o Presidente Executivo, aquele que foi ungido pelas urnas para presidir o clube, em “rainha da Inglaterra”, transformando-o apenas um mandatário desse Conselho para representar do Clube junto às entidades de pratica e administração do Desporto e a mídia desportiva.

Outra questão a ser analisada é se existe conflito de competências entre as funções do Conselho Deliberativo e o do Conselho de Administração. Minha avaliação é de que as atribuições desses Conselhos sejam claramente definidas e delimitadas no Estatuto Social para se evitar confusão e impactos negativos entre esses dois poderes. Destaco que o Conselho Deliberativo é uma entidade política e representativa dos associados, enquanto que o Conselho de Administração é uma entidade técnica representativa do Conselho Deliberativo na ORIENTAÇÃO da gestão.

Enquanto a estrutura é importante, a melhor forma de iniciar a montagem de um conselho é a forma de se escolher, eleger e manter as pessoas certas. No futebol corremos o risco de passarmos pela fase dos “conselhos de compadres”, ou ainda, os “conselhos de notáveis”, com objetivos mais institucionais do que propriamente de criação de valor. No entanto, o desafio para as entidades de prática desportiva sem fins lucrativos é o de construir um conselho de administração, sem remuneração, somando a presença de conselheiros externos e independentes (competência e know how gerencial) com a presença de conselheiros internos (experiência na gestão de clubes) de modo a permitir um envolvimento construtivo para a realização dos resultados do clube.

O conselho de administração realmente poderá criar valor se estiver alinhado com as melhores práticas de governança corporativa, com uma clara definição de seu papel, uma estrutura apropriada, com as pessoas certas e processos que permitam extrair o máximo de cada conselheiro. Entretanto, CABE A PRESIDÊNCIA EXECUTIVA A GESTÃO ADMINISTRATIVA DO CLUBE. No segmento do futebol, dado suas especificidades, sua cultura e repercussão dos atos administrativos é imperativo “fulanizar” quem detêm a responsabilidade por tais atos. Logo, entendo ser aconselhável que os papéis de Presidente do Conselho e Presidente do Clube sejam exercidos por pessoas diferentes, respeitando-se a necessária independência do Conselho de Administração.

Para finalizar, sem qualquer pretensão de esgotar este vasto e riquíssimo tema a que nos propusemos comentar procuramos lançar argumentos para reflexão,  uma vez que o segmento do futebol lida com o interesse público e, portanto, precisa estar preparado para a realidade de que não há solução fora da organização e do profissionalismo.

Os clubes, submetidos à lógica da racionalidade e do domínio do conhecimento, se distanciam da impulsividade emocional e se aproximam do bom senso e da razão.

Por : admin /Setembro 24, 2013 /Artigos

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