Sofrer no paraíso

Futebol de Fato!

Aparentemente, no futebol os problemas terminam quando se acham os culpados e não as soluções. Nós, brasileiros, temos a mania de nos queixarmos sempre. Entretanto, ninguém nos odeia pelo mundo afora. É só aparecer com a camisa verde-e-amarela da Seleção Brasileira para as pessoas não pararem de saudar. É bom ser brasileiro, só falta nos valorizarmos. Compare o nosso futebol com o de alguns anos atrás. Certamente subimos nosso nível de exigência. Já estamos exigindo que cada um cumpra seus deveres, no respeito às leis e ao próximo. Esse espírito é um antídoto para a epidemia do caos.

Passou o tempo em que orgulhávamos de ser apenas o melhor futebol do mundo. Agora aspiramos atingir padrões de primeiro mundo, principalmente em organização, cumprimento de horários e calendário, leis e compromissos com nossos torcedores. Tudo isso sem abdicarmos do nosso espírito tropical, miscigenado, fraterno e tolerante. Entretanto, temos que parar de dizer que tudo que acontece de ruim é culpa dos dirigentes.

O reino da “livre expressão democrática” e da análise superficial não têm o menor cuidado e delicadeza com esses dirigentes. Ao chamá-los pejorativamente de “cartolas”, eles acham que o futebol se caracteriza pela corrupção e por falsas promessas que somente a sabedoria jornalística pode resolver. O hábito de eleger bodes expiatórios para mazelas no futebol é comum nas sociedades primitivas e modernas. Já elegemos judeus, ciganos, e até iraquianos como culpados por nossos problemas. Esse hábito tem a mesma raiz da frustração dos adolescentes que atribuem aos pais todas as dificuldades da vida. A mentira não é problema. Se o interesse publico não for atendido não tem importância. O que vale é a liberdade de expressão, a concorrência entre os veículos de imprensa, a busca contumaz de culpados e a lógica perversa de que no futebol nada faz mais sucesso do que o insucesso.

O difícil mesmo é fazer futebol no Brasil. Em muito ajudaria se a mídia formadora de opinião desse o devido peso às entidades de administração e pratica desportiva, mudasse a maneira de como enxergar o futebol e seus dirigentes fazendo uma nova leitura do mesmo script e, se comprometesse definitivamente na busca das soluções. No futebol, muitas vezes, as aparências não enganam: o que parece ser é. Outras vezes, o que parece ser não é.

É difícil conciliar todos os pontos de vista. Não dá para resolver os impasses do futebol sem mexer com interesses concorrentes. Mexer nesse vespeiro significa tratar adequadamente as falhas de hoje que podem ser a semente da redenção de amanhã. A luta deve ser pelas idéias dominantes, que impulsionarão a nossa forma de pensar e por fim a forma de agir.

A transformação tropeça quando se personalizam as diferenças. Esta rivalidade é antropofágica. Basta que não exista a “turma do bem” e a “turma do mal” e um primeiro passo desta transformação terá se iniciado. Para a modernização do futebol dar certo, os rivais devem ser os melhores parceiros desde que se ajudem mutuamente tornando maior o bolo de oportunidades para todos. É preciso entender que o processo de transformação é uma porta que só abre pelo lado de dentro, logo, somente acontecerá através dos dirigentes de plantão.

Entretanto a patrulha é imensa e impiedosa. São tantas as armadilhas fomentadas pela indústria do insucesso e da fofoca que acaba instigando a se atacar de volta, sempre imaginando o beneficiado pela intriga. Para quem ama o futebol, e quer melhorar as coisas, tudo isso acaba perdendo importância.

Mas o fato é que, no paraíso pentacampeão do mundo, não devíamos tratar tão mal os dirigentes. Afinal, eles também são “culpados” pela hegemonia do futebol brasileiro. Na verdade, estamos diante de dois cenários possíveis: viver no céu ou no inferno.

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Esta opção me faz lembrar a parábola em que um discípulo perguntava certo dia ao sábio:
- Mestre, qual a diferença entre o céu e o inferno?
O sábio respondeu:
- Vi um grande monte de arroz cozido e preparado como alimento. Ao redor dele estavam muitos homens famintos. Eles não podiam se aproximar do arroz, mas possuíam longos palitos de dois a três metros de comprimento. Pegavam, é verdade, o arroz, mas não conseguiam levá-lo a boca porque os palitos eram muito longos. E assim, famintos e moribundos, embora juntos, permaneciam solitários curtindo uma fome eterna diante de uma inesgotável fartura. Isso era o inferno.

- Vi outro grande monte de arroz cozido e preparado como alimento. Ao redor dele muitos famintos, mas cheios de vitalidade. Eles não podiam se aproximar do monte de arroz, mas possuíam longos palitos de dois a três metros de comprimento. Apanhavam o arroz, mas não podiam levá-lo à própria boca porque os palitos eram muitos longos. Mas, com seus longos palitos, ao invés de levá-los à boca, serviam-se uns aos outros o arroz. E assim, matavam sua fome insaciável numa grande comunhão fraterna, juntos e solidários. E isso era o céu.

* Este artigo representa apenas a opinião do diretor-presidente da DFS Gol Business, e não a opinião das entidades em que o referido autor esta inserido.

Por : admin /Janeiro 23, 2004 /Artigos

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