O clube empresa – A falsa moralização

Futebol de Fato!

O pano de fundo para a transformação do clube de futebol em empresa é a moralização da administração. Entretanto, administração não se faz com algo, e sim com alguém. Logo, é reflexo direto das pessoas que a fazem. O bem e o mal não estão na formatação jurídica da entidade e sim nos dirigentes que tem a responsabilidade de administrá-la.

Neste sentido, a nova legislação esportiva marcou um gol de placa quando exigiu que os balanços fossem examinados por auditorias independentes e publicados, o que dá uma total transparência aos atos administrativos e permite visualizar a real situação financeira e patrimonial da entidade esportiva. Uma outra ação eficiente e eficaz foi a de exigir responsabilidade fiscal aos dirigentes. Com essas medidas moralizadoras, o governo começa a dar demonstrações de que está disposto a exterminar os aventureiros e de impedir que os clubes se fragilizem financeiramente por má conduta administrativa. Desta forma, é possível recuperar a credibilidade junto ao investidor. Entretanto, não basta ter regras. O futebol só se organizará quando dispor de instrumentos de punição eficientes, associados a mecanismos que evitem que os maus elementos cheguem ao poder.

O impacto das fraudes corporativas em empresas globais, tais como Enron, WorldCom e Parmalat e histórias parecidas no Brasil como Banco Nacional, Econômico, Boa Vista, Noroeste, entre outras, todas de capital aberto, logo inseridas nos preceitos e exigências da Lei das S.A., demonstra que o fato de ser empresa não garante um certificado de moralidade. Na indústria do futebol, clubes-empresa como Fiorentina, Parma, Lazio e Leeds United reforçam essa tese. Esta questão merece vários desdobramentos, mas acaba desembocando numa vala comum: coloca em foco os contadores, os controladores e os auditores, aumenta o rigor no cumprimento dos princípios contábeis e às punições as más condutas e finalmente desperta os dirigentes para a necessidade de deixar o amadorismo de lado e contratar profissionais qualificados para orientar o negócio.

Esses escândalos internacionais e nacionais servem também para alertar os clubes de futebol para a necessidade de se ter bons contadores, controladores e auditores responsáveis pelo registro, clareza e legitimação na prestação de contas e pela garantia de controles internos satisfatórios. Entretanto, dada a relevância do movimento econômico que envolve as transações de um clube de futebol, – a atual legislação esportiva que extinguiu o passe, a necessidade de se separar as categorias de despesas e receitas envolvendo o futebol profissional, o futebol de base, a parte social e os outros esportes – se faz premente uma normatização contábil de modo a permitir a comparabilidade e a utilização de todo o potencial da contabilidade em seu valor informativo para os inúmeros usuários. Urge que se forme um grupo de trabalho reunindo profissionais do Conselho Federal de Contabilidade, do Instituto de Auditores Independentes do Brasil e dos Clubes de Futebol para debater, propor e implantar um plano de contas que padronize esses demonstrativos.

Outra questão relevante sobre a mudança do clube em empresa, é como o torcedor assimilaria essa transformação?

Este é um ponto importante quando se transforma um clube em uma empresa, porque nos remete ao conceito de propriedade. Um clube não deveria ser considerado uma propriedade, mas sim uma comunidade. Uma comunidade criada em torno de um propósito comum, mais de que um lugar comum. Ninguém é dono de uma comunidade. Os integrantes dessa comunidade são adequadamente chamados de torcedores que precisam ser valorizados e colocados entre as primeiras prioridades dos clubes. Estes torcedores desejam a perpetuidade do clube e, portanto, se preocupam quanto ao modo pela qual essa comunidade vem sendo governada. Querem ser tratados como clientes porque ao final são eles que pagam a conta. Quanto mais o governo e os dirigentes entenderem isso, mais se interessarão em garantir a sobrevivência, o crescimento e o futuro dos clubes.

O lucro é um outro falso ingrediente associado ao clube-empresa. Os clubes, como associações organizadas sem fins lucrativos, não estão impedidos de gerar lucros (superávits), mas sim obrigados a reinvesti-los em seus próprios negócios, para gerarem crescimento e não para distribuí-los aos seus acionistas. O problema é que em um ambiente onde é difícil separar a emoção da razão, somente a profissionalização da gestão permitirá o desenvolvimento de uma cultura que mostre que onde existe paixão, pode existir lucro.

Somos favoráveis que na legislação não haja a obrigatoriedade dos clubes em se transformarem em empresas e nem haja indução a esta atitude, gerada por benefícios públicos. Nossa proposta vai no caminho da gestão profissionalizada em todos os níveis da organização. Trilhar por esse caminho quase sempre exige alguma dor em troca dos ganhos. Como muitos remédios desagradáveis, ardem mais curam. Mais do que nunca, o processo se assemelha à psicanálise, pela qual a solução de todos os problemas requer, antes de tudo, que o paciente os reconheça e queira resolvê-los.

Entretanto, se a transformação das entidades de prática desportiva de associações (sem fins lucrativos) para sociedades (com fins lucrativos) seja uma forma ou exigência para atrair parceiros em capital, nossa sugestão é de que o Clube, na forma de associação, somente poderá utilizar seus bens e direitos patrimoniais para integralizar sua parcela de capital na constituição de uma nova sociedade empresaria, com a concordância da maioria absoluta da assembléia geral de associados, mantida a condição majoritária do capital com direito a voto.

* Este artigo representa apenas a opinião do diretor-presidente da DFS Gol Business, e não a opinião das entidades em que o referido autor esta inserido.

Por : admin /Março 03, 2004 /Artigos

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