Onde está o dinheiro?

Futebol de Fato!

O Relatório Taylor (Taylor Report) está para os clubes ingleses assim como o Estatuto do Desporto está para os clubes do futebol brasileiro. No fundo essas leis refletem o descontentamento da sociedade com os caminhos escolhidos na condução do “negócio” chamado futebol.

Na Inglaterra, tudo começou com a violência crescente nos estádios, conhecida por “hooliganismo” que culminou com a morte de 96 pessoas no desastre de Hillsborough em 1989 provocadas por uma grande aglomeração nas arquibancadas fechadas do estádio de Leppings Lane, projetadas para evitar invasões em campo.Tal massacre foi resultado de uma série de equívocos do policiamento, aliados as péssimas condições do estádio.

Peter Taylor, responsável pelo governo inglês para investigar não só este desastre como também para analisar as condições dos estádios ingleses em geral, concluiu o seguinte relatório:

“O quadro revelado é de uma indisposição geral ou uma grande deturpação do jogo devido a uma série de fatores. Principalmente estes: argumentos antigos, falta de capacidade, “hooliganismo”, excesso de bebidas e falta de lideranças”.

Este relatório foi o principal responsável: pelas mudanças nas condições dos estádios que tiveram de ser, compulsoriamente, adotadas pelos clubes; pela completa mudança na maneira com que eram tratados os torcedores; e pela necessidade de se gerir profissionalmente os clubes buscando alavancar recursos significativos para esses investimentos.

A partir do momento em que o Relatório Taylor forçou os clubes a reformarem seus estádios de modo a garantir segurança dos torcedores deu-se início ao processo de modernização do futebol inglês. Foi quando os dirigentes aproveitaram para criar outras fontes de receita explorando as novas arenas esportivas em toda a sua potencialidade, com lojas, museus e diversos tipos de serviços que pudessem oferecer mais conforto e satisfação aos torcedores, que passaram a ser vistos como clientes. A primeira providência foi à demarcação de lugares individuais para que todos pudessem assistir aos jogos sentados. Nisso foi gasto quase um bilhão de dólares em reformas, tendo sido um terço desse montante financiado pelo governo inglês. Essa medida serviu como pano de fundo de um desenvolvimento que possibilitou forte parceria com a televisão, que detém papel estratégico no sucesso do futebol inglês. Mas nem por isso o público abandonou os estádios. O sucesso do futebol inglês também se faz sentir nas arquibancadas. As partidas recebem público de 30 mil torcedores, o que representa ocupação de 90% da capacidade dos estádios da Inglaterra.

O modelo brasileiro para a modernização do futebol parece trilhar o mesmo caminho do modelo inglês.Prova disso é a tentativa de transformar o torcedor de estádio em um cliente consumidor de um espetáculo com qualidade e algumas outras exigências pontuais de segurança conforto e higiene.

Parece, mas não é.

Em primeiro lugar porque não leva em conta as assimetrias culturais e econômicas entre esses países e portanto se baseia na míope comparação dos falsos iguais e, em segundo lugar por se tratar de uma solução cosmética de adaptação dos estádios as exigências da nova legislação, que não gera recursos adicionais de receita e aumenta os custos do espetáculo com a conseqüente redução de bilheteria.

Vamos falar sério. O problema não é de Lei. É de comportamento e visão. Com as leis que temos, se houvesse uma estrutura de incentivos apropriada mudava-se o comportamento. O governo inglês sensibilizado com o problema do futebol e com visão estratégica fez sua parte. Financiou direta ou indiretamente a reforma dos estádios ingleses e estes foram transformados em grandes centros comerciais gerando para os clubes novas fontes de receita diárias e não apenas em dias de jogos.

A gestão estratégica de Martin Edwards a frente do Manchester United começou pelo que ele denominou Visão Estratégica. A sustentação desse modelo foi apoiada em três pilares: o controle salarial e de transferências de jogadores; a maximização de receitas (fruto de sua marca e do tratamento do torcedor como cliente); e a exploração de seu estádio (Old Trafford), reformado para gerar receita o ano todo através do que se convencionou chamar de arena multiuso.

Hoje, o Old Trafford tornou-se uma máquina de fazer dinheiro. Este estádio é um verdadeiro shopping, com lojas, restaurantes, lanchonetes, bares, cafés, museu, estações de rádio e televisão próprias (MUTV). Em dias de jogos são servidas mais de duas mil refeições no restaurante com vista para o campo. Camarotes, suítes, lojas e venda de exemplares de revistas da agremiação, completam o leque de fontes de receita que o time explora em cada jogo. Fora de dias de jogo, mais de 200 mil pessoas visitam o clube todo o ano, pagando 27 reais por ingresso só para ver o museu e conhecer o interior da arena. Se por um lado, é necessário um time ser forte no futebol para ter sua marca valorizada, por outro lado, seus objetivos não podem ficar limitados ao campo.

O conceito de Arena, com a multiplicidade de usos dentro de um mesmo espaço, já era praticado há 2000 anos durante os áureo tempos do império romano onde se construiu o estádio mais famoso da época para abrigar diversos tipos de modalidades de entretenimento. Dessa forma, procura-se não a invenção de algo novo, mas conseguir projetar um equipamento de lazer fortemente ligado ao turismo, gerador de receitas para os clubes, criando empregos e promovendo o desenvolvimento urbano, social e cultural, com novas formas de lazer regional, além da possibilidade a realização de grandes eventos. É um novo e gigantesco nicho econômico que está sendo bastante explorado mundialmente e que esperamos ser a hora e a vez do Brasil. Este parece ser o desafio a ser perseguido pelos clubes brasileiros.

Mas onde está o dinheiro?

É aí que entra o governo. Os recursos terão de ser divididos entre empréstimos bancários e investidores.

No primeiro caso o governo através o BNDES poderia financiar as reformas ou construções de estádios médios (ao redor de 35 mil lugares) com taxa subsidiada, prazo alongado e com carência necessária para que o investimento comece a produzir riqueza e tendo como garantia de pagamento um percentual dos recebíveis de bilheteria ou cotas de TV.

No segundo caso, existe uma clara sinalização de investidores estrangeiros interessados neste tipo de negócio. Sinalizar com a possibilidade de se conceder incentivos fiscais seria uma forma indireta de usar dinheiro publico para atrair investimentos de modo a garantir a sobrevivência dos clubes e a preservação do futebol como a maior manifestação cultural do povo brasileiro.

Entretanto, para se tornar elegível a esse tipo de financiamento público os clubes teriam que fazer sua lição de casa. Neste caso a profissionalização, a transparência e um projeto estratégico de equilíbrio financeiro passam a ser as garantias morais para a utilização desses recursos.

Um outro ponto a ser considerado é que teremos no Brasil o Pan-Americano em 2007 e a Copa do Mundo em 2014. Na opinião de especialistas a indústria do entretecimento é aquela que mais irá desenvolver-se nas próximas décadas, e a América Latina, por sua vez, é a região com maior potencial de crescimento, sendo que no Brasil, o setor que mais receberá recursos será o futebol. Tudo isto somado à estabilidade econômica do país pode ser o início de uma nova onda de investimento em estádios (arenas) e uma fundamental fonte de recursos para os clubes aumentarem suas receitas.

A médio e longo prazo os clubes que não possuírem estádios modernizados dentro de um conceito de multifuncionalidade capazes de contabilizar recursos alternativos de receitas, independentes dos dias de jogos, terão sérias dificuldades de sobrevivência.

* Este artigo representa apenas a opinião do diretor-presidente da DFS Gol Business, e não a opinião das entidades em que o referido autor esta inserido.

Por : admin /Março 18, 2004 /Artigos

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