O consenso que nada muda

Futebol de Fato!

Uma questão importante para a sobrevivência dos clubes de futebol é, sem dúvida alguma, à parte que cabe a cada um na distribuição das cotas de televisão. Esta é na atualidade a principal e maior fonte de receita dos clubes de futebol da série A e B do campeonato brasileiro. O critério de distribuição atual distorce a lógica do bom senso porque não reconhece os direitos dos clubes que têm maior exposição na mídia eletrônica de receberem cotas compatíveis com o numero de aparições em TV aberta, fechada e pay-per view.

No futebol, a norma é os clubes buscarem um suposto “consenso”, que na verdade só perpetua os interesses atuais, mantendo os direitos dos mesmos e abafando qualquer proposta tecnicamente elaborada que resgate a justiça na hora de distribuir o dinheiro.

A percepção é de que os clubes somente conseguem enxergar a arvore e não a floresta. O conformismo diante da impossibilidade de mudança da atual situação engessa a vontade de virar a mesa.

Mas porque não mudar?

Porque as propostas independentes de serem técnicas e justas são analisadas e aprovadas pela Assembléia do Clube dos Treze que é um ambiente eminentemente político onde cada dirigente, por força de ofício, defende os interesses de seu clube sem se preocupar com o todo em que está inserido. Ou seja, se uma proposta técnica e equilibrada de distribuição de cotas demonstrar que o clube receberá valores inferiores em relação ao “critério” vigente terá o voto contrário desse dirigente.

Mas o que seria uma proposta tecnicamente justa?

Mais uma vez, não vamos inventar a roda. Basta usar como marco de referência o critério que se pratica na Europa temperado com ingredientes tupiniquins para adaptá-lo a realidade dos nossos campeonatos. Este se baseia na utilização de três variáveis: a participação, a exposição e a premiação.

Cada uma dessas variáveis tem um peso em percentual na composição do montante pago mensalmente pela TV. Os percentuais são discutíveis, entretanto para efeito didático vamos considerar 30% pela participação, 60% pela exposição e 10% pela premiação.

Pela participação todos os clubes inscritos no campeonato receberiam cotas iguais independentes da sua visibilidade, atratividade, número de torcedores, jogos transmitidos, tradição, títulos conquistados, entre outros.

Pela exposição os clubes receberiam na proporção da quantidade de vezes em que seus jogos tenham sido transmitidos, levando-se em conta também o alcance obtido por cada uma das mídias (TV aberta, fechada e pay-per-view). Neste caso é valido considerar que o clube que mais atrair o espetáculo deverá ter, no item exposição, uma cota maior em relação ao seu adversário. Logo, existem duas variáveis possíveis para cada clube: a quantidade de jogos transmitidos e a importância estratégica e comercial da sua marca na audiência desejada pela rede de televisão.

Na variável premiação o objetivo é de recompensar os clubes com melhor performance em campo. A idéia é contemplar todos clubes na proporção da sua colocação na tabela final do campeonato. Seria uma bonificação por objetivo a ser paga aos clubes quando do termino da competição e serviria como uma motivação adicional, principalmente para as agremiações que não estivessem disputando os primeiros lugares classificatórios para torneios internacionais e aquelas outras que não estivessem disputando para não cair para uma série inferior.

Como o valor da premiação é pago mensalmente pela rede de televisão para o Clube dos Treze e somente seria repassada para os clubes ao final da competição, este valor constituiria, durante o ano, um fundo emergencial de liquidez para ajudar os clubes, com dificuldade de caixa, a reforçar momentaneamente seu fluxo de pagamentos, minimizando o risco de perder ativos importantes como o jogador de futebol. Caberia ao Clube dos Treze estabelecer critérios equilibrados para a concessão desse benefício, considerando que o retorno desse empréstimo está garantido pelas cotas de participação e exposição que os clubes teriam que receber mensalmente da televisão. A recomposição desse fundo na sua totalidade deverá estar assegurada ao final de cada campeonato para que seja distribuída como premiação.

Em linhas gerais, este é um modelo, pelo menos, mais justo e equilibrado. Entretanto, enquanto os clubes encararem a inércia da não transformação desta realidade atual como se fosse parte do jogo do poder e, não existir vontade e entusiasmo para acreditar na capacidade de transformar as coisas e de fazer dar certo estaremos diante de um consenso que nada muda, quando é preciso uma mudança radical da forma de pensar e agir dos clubes de futebol.

* Este artigo representa apenas a opinião do diretor-presidente da DFS Gol Business, e não a opinião das entidades em que o referido autor esta inserido.

Por : admin /Julho 23, 2004 /Artigos

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