Ação Estratégica

Futebol de Fato!

No dia 21 de março de 2005, fui convidado para fazer uma palestra na aula inaugural do curso de Formação de Futuros Dirigentes do São Paulo Futebol Clube (SPFC). Trata-se de um curso in house voltado para associados do clube que tem como objetivo o desenvolvimento e capacitação de novos líderes visando o aprimoramento da gestão.

O programa, dividido em dois módulos (Institucional e Vivencial), com duração de 9 meses, abrangerá assuntos de interesse do futebol e do SPFC, contará com especialistas do clube e convidados e mostrará na prática o dia-a-dia das diretorias. Ao final do curso os participantes apresentarão um trabalho de conclusão. Para participar do módulo Vivencial doze associados foram escolhidos pela coordenação com base nos critérios de formação educacional, especialização, função profissional e entrevista pessoal.

Para falar sobre um modelo de gestão em clubes de futebol é preciso falar sobre esta iniciativa do SPFC de formar talentos para os quadros diretivos. A leitura que faço dessa iniciativa é a de que o SPFC tem a clara percepção de que administração não se faz com algo e sim com alguém e portanto é reflexo direto das pessoas que a fazem. Logo, este curso está sinalizando que o modelo de gestão dos clubes de futebol do futuro será aquele centrado no capital humano. Desta forma, o SPFC reforça o meu pensamento de que não há solução fora da organização e do profissionalismo e de que um clube só é campeão dentro do campo se for campeão fora dele.

Durante a aula inaugural presenciei atentamente a fala dos últimos presidentes do São Paulo e o que mais me tocou foi a dificuldade por eles expressa em se administrar um clube com a razão num ambiente permeado pela emoção colocando a solução desta questão como um grande desafio para os futuros dirigentes em formação.

O problema, na minha ótica, é que em um ambiente onde é difícil separar a emoção da razão, somente a profissionalização da gestão permitirá o desenvolvimento de uma cultura que mostre que onde existe paixão pode existir lucro.

Objetivos como o desenvolvimento e exploração da marca e do marketing esportivo, conquistas de novos mercados, a transformação do torcedor em cliente-consumidor, instalações que atraiam o torcedor aos estádios e gerem fontes alternativas de receitas, infra-estrutura para prospecção e desenvolvimento de novos talentos, gestão profissionalizada e parcerias são objetivos de um novo modelo de negocio que coloca a competência como uma das prioridades do clube e uma variável indispensável na fórmula de sucesso do crescimento sustentável.

Para viabilizar este ambiente interno, somente em uma administração formada com profissionais e competências multidisciplinares será possível substituir reações emocionais por decisões racionais e, para tanto, não é preciso dominar a razão, basta simplesmente controlar a emoção.

É preciso se fazer uma nova leitura desse mesmo script e buscar soluções novas, ter uma dimensão atualizada do negócio chamado futebol e romper com paradigmas ultrapassados. Uma coisa é certa: continuar a fazer as coisas como sempre foram feitas, se conseguirão sempre os mesmos resultados e, eles seguramente podem não ser suficientes para garantir o futuro. Não se faz mais o amanhã com o ontem. É preciso fazer o presente e construir o futuro.

O amadorismo acabou e está sendo sepultado lentamente, levando junto os clubes que, por não perceberem o atual momento, ficam a mercê da fatalidade, subestimando o amanhã, diante de uma situação de mercado que está mudando e que exige reformulações na concepção da gestão e na estratégia desse novo negocio. Portanto, neste novo ambiente empresarial, é hora e a vez da competência.

Os clubes que já domesticaram o amadorismo serão invariavelmente bem sucedidos. Para os outros que ainda convivem com a inépcia gerencial que suga a energia do clube pela sua incompetência, pelo anacronismo empresarial e pelo amadorismo sem limites deverão lembrar-se que quando o amadorismo passa a fazer parte da essência do negócio e se torna um fim em si mesmo, esta na hora de acabar com ele, ou ele acaba com o clube.

Os problemas da indústria do futebol começam em uma legislação desbalanceada e terminam na falta de visão e desorganização dos clubes de futebol, com raras exceções, conseqüência desta má qualificação da força de trabalho, com chefias e lideranças fracas engessadas por paradigmas ultrapassados, resistentes a mudanças, postura mental centrada no time e não no clube, concorrência interna (nós do futebol versus eles da administração – anti-sinergia), entre tantos outros pontos. Os clubes neste processo estão com estruturas e gestões amadoras, onde o futebol é movido exclusivamente pela emoção.

Para liderar esse processo de ajuste com a profundidade necessária e velocidade requerida, a solução encontrada pelo SPFC foi de formar profissionais, dentro da sua comunidade, com características de criatividade, com personalidade de gestor de crises, de solucionador de problemas, capazes de se tornarem indiferentes às conveniências e interesse políticos, individuais, de corporativismo interno, de tradição, preparados para correr riscos, conceber cenários, agir com senso estratégico e proatividade, enfim comprometidos por uma nova ótica do clube como entidade maior, cujo sucesso como decorrência, beneficia os funcionários, associados, torcedores e patrocinadores.

Os modelos de clubes baseados na profissionalização e portanto submetido à lógica da racionalidade e do domínio do conhecimento, se distanciam da impulsividade emocional e se aproximam do bom senso e da razão. A eficiência e eficácia serão perseguidas criando-se o hábito de pensar no futuro, sem contudo se perder as raízes da paixão.

Parabenizo o São Paulo Futebol Clube por essa iniciativa, pois dá um exemplo a ser seguido, mostrando que com ação estratégica todos esses problemas tem solução, mas requerem fundamentalmente vontade política e uma mudança radical da forma de pensar e agir.

Em um ambiente de incertezas e de mudanças aceleradas não são os grandes que engolem os pequenos mas os ágeis que atropelam os lerdos e o SPFC sai na frente demonstrando ser um grande com agilidade estratégica.

 

* Este artigo representa apenas a opinião do diretor-presidente da DFS Gol Business, e não a opinião das entidades em que o referido autor esta inserido.

 

Por : admin /Abril 04, 2005 /Artigos

Envie seu Comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

  • DFS
  • Sobre

    A DFS Gol Business é uma empresa de caráter privado especializada em gestão e consultoria empresarial no esporte.

  • Newsletter

    Cadastre-se e receba as novidades da DFS Gol Business.